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Pensando em comprar uma casa?

📝 Intro

Comprar ou investir em uma moradia é uma das decisões financeiras mais relevantes na vida de uma pessoa. Envolve valores significativos, compromissos de longo prazo e um grau significativo de incerteza. Essa decisão raramente é tomada de forma plenamente racional ou objetiva. São muitos os fatores psicológicos, emocionais e familiares que impactam as escolhas, por exemplo. Reconhecer isso é um passo essencial para evitar armadilhas comuns nessas situações. De onde surge pode surgir algum problema?

A compra de um imóvel não é apenas uma transação financeira: trata-se de uma decisão profundamente emocional e social. Expectativas de status, segurança e realização pessoal se misturam a informações incompletas, preços difíceis de comparar e narrativas de mercado que reforçam a urgência (“é agora ou nunca”). Esses elementos ativam vieses como a ancoragem (foco excessivo no primeiro preço visto), o efeito manada (seguir o comportamento de outros compradores) e a aversão à perda (medo de “perder a oportunidade”), tornando quase impossível avaliar todas as alternativas de forma objetiva. Quais são os impactos no dia a dia?

Na prática, esses vieses podem levar tanto a decisões impulsivas quanto à paralisia decisória (procrastinação). Algumas pessoas compram um imóvel além de sua capacidade financeira por receio de ficar de fora do mercado; outras adiam indefinidamente a decisão esperando o “momento perfeito”. Para organizações do setor imobiliário, financeiro ou para formuladores de políticas públicas, isso se traduz em maior inadimplência, frustração dos clientes e menor confiança no processo de decisão. Por que as ciências comportamentais podem ajudar?

As ciências comportamentais oferecem uma lente mais realista para compreender esse tipo de decisão. Em vez de assumir que basta fornecer mais informação, esse campo reconhece que a forma como as opções são apresentadas, o momento da decisão e o contexto social influenciam fortemente o comportamento. Esse conjunto de evidências sustenta o que a literatura internacional vem chamando de Behavioral Real Estate, um campo dedicado a estudar como vieses cognitivos, emoções e influências sociais moldam decisões no mercado imobiliário, da busca inicial até a assinatura do contrato. Quais são alguns vieses-chave na compra de um imóvel?

Entre os vieses mais relevantes destacam-se o excesso de confiança e o otimismo irrealista. Muitas pessoas superestimam sua capacidade de prever a evolução do mercado imobiliário, manter estabilidade financeira ao longo de décadas ou reagir facilmente a imprevistos. Isso leva à subestimação de riscos como aumento das taxas de juros, mudanças na situação profissional ou queda no valor do imóvel. Um exemplo comum ocorre nas simulações de financiamento: quando o comprador vê apenas a parcela atual, tende a assumir que conseguirá lidar com variações futuras. Ao apresentar apenas um cenário fixo, o ambiente de decisão reforça a ilusão de controle; ao apresentar cenários alternativos, a percepção de risco se torna mais realista. O papel dos assessores e consultores no processo de decisão

Assessores e consultores do mercado imobiliário ocupam uma posição central nesse processo. Mais do que apresentar opções ou explicar condições contratuais, esses profissionais atuam como mediadores entre informações complexas, expectativas emocionais e pressões sociais que cercam o comprador.

Do ponto de vista comportamental, seu impacto vai além do conhecimento técnico. A forma como fazem perguntas, quais alternativas destacam e como enquadram riscos e benefícios influencia diretamente a percepção de valor, urgência e segurança da decisão. Por isso, compreender o momento de vida do cliente, estabilidade profissional, planos familiares, objetivos financeiros e tolerância ao risco é fundamental.

Além disso, a decisão de compra raramente é individual. Expectativas de cônjuges, filhos e familiares próximos exercem forte influência, muitas vezes de forma implícita. O desejo de atender às expectativas do grupo, evitar desaprovação social ou buscar validação externa pode pesar tanto quanto fatores financeiros. Consultores atentos a esse fator conseguem ajudar a tornar essas influências mais visíveis, promovendo conversas estruturadas sobre motivações reais, prioridades familiares e trade-offs envolvidos.

Quando bem preparados, esses profissionais deixam de ser apenas facilitadores de transações e passam a atuar como facilitadores de boas decisões, um princípio central dentro do campo de Behavioral Real Estate.


💡Ideias de projetos comportamentais

Quais caminhos podem ser explorados por organizações para melhorar essas decisões?


  1. Reenquadrar a informação para calibrar expectativas. A forma como a informação é apresentada é tão importante quanto seu conteúdo. Mostrar apenas cenários médios pode reforçar o otimismo irrealista. Apresentar intervalos, probabilidades e exemplos concretos ajuda a reduzir vieses. Por exemplo: “Com este financiamento, a parcela é de R$ 1.200 por mês. Se a taxa subir 2 pontos percentuais, a parcela pode chegar a R$ 1.450.”

  2. Normalizar a incerteza e reduzir a ilusão de controle. Reconhecer explicitamente que prever preços, juros ou condições pessoais futuras é difícil (inclusive para especialistas) ajuda a reduzir a falsa sensação de controle e favorece decisões mais prudentes.

  3. Capacitar assessores como facilitadores de boas decisões. Projetos inspirados em Behavioral Real Estate mostram que treinar consultores para identificar vieses, mapear objetivos de vida e incorporar o contexto familiar no processo decisório pode melhorar significativamente a qualidade das escolhas. Em vez de apenas acelerar decisões, esses profissionais passam a apoiar decisões mais conscientes e sustentáveis no longo prazo.

  4. Linguagem simplificada e fricções deliberadas em momentos críticos. Diante do excesso de confiança e da pressão por urgência, uma estratégia eficaz é criar pausas estruturadas em etapas-chave, como a assinatura de contratos ou financiamentos. Esses momentos de reflexão ajudam a revisar pressupostos excessivamente otimistas.



Quais fatores comportamentais devem ser considerados?

  • Psicológicos: consciência dos limites cognitivos, gestão de expectativas, redução da ilusão de controle.

  • Contextuais: estrutura do processo de compra, momentos de pausa, comparação entre cenários e forma de apresentação das informações.

  • Sociais: expectativas do núcleo familiar, normas sociais e narrativas dominantes sobre sucesso e status associados à casa própria.



Esse artigo contou com a valiosa colaboração de Lucía Perez que cursa dupla titulação em Administração de Empresas na instituição Carlos III de Madrid & ESCP de Londres.



📖 Leitura recomendada

Chen, J.-Y., & Wang, M.-H. (2023). A study on real estate purchase decisions: Framing, anchoring, and the role of optimism. Sustainability, 15(6), 5216.

Gibler, K. M. (2020). Consumer behavior applications to real estate. Journal of Real Estate Literature, 28(1), 1–24.

Salzman, D. (2020). Behavioral real estate: Applying behavioral economics to the property market. Working paper. Shiller, R. J. (2005). Irrational exuberance (2nd ed.). Princeton University Press.

Morales Moya, M., Casanueva Nárdiz, C., & Ruiz López, F. (2008). Factores de irracionalidad en la formación de precios en el mercado de la vivienda. In II International Conference on Industrial Engineering and Industrial Management / XII Congreso de Ingeniería de Organización. Burgos, Spain.

Bao, H. X. H. (2023). Between carrots and sticks, from intentions to actions: Behavioural interventions for housing decisions (Working Paper No. 2023-01). University of Cambridge, Department of Land Economy.

Kuchler, T., Piazzesi, M., & Stroebel, J. (2022). Housing market expectations. National Bureau of Economic Research Working Paper No. 29909.

Case, K. E., & Shiller, R. J. (1989). The efficiency of the market for single-family homes. American Economic Review, 79(1), 125–137.

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